domingo, 15 de dezembro de 2013

O mercado de ações e a recente invasão das máquinas

Poucas pessoas sabem, mas atualmente mais de 70% de todos os negócios realizados nas principais bolsas de valores do mundo são realizados por programas de computadores (na NASDAQ e na NYSE), e sem qualquer tipo de interferência humana em seu processo de tomada de decisão (comprar ou vender, eis a questão). Isso quer dizer que se você compra ou vende uma ação por lá hoje, há uma grande possibilidade de estar negociando exclusivamente com uma máquina (zeros e uns agindo por si só).

Desde os primórdios, informação significa poder. E se você a captura mais rapidamente se comparado a maior parte dos participantes do mercado, possui maior potencial para aproveitar boas oportunidades. Embora muitas pessoas imaginem que a execução deste conceito seja recente nos mercados, foi pela primeira vez documentada no século XVII. A família Rothschild utilizava pombos-correio para levar a informação de distorções nos valores de alguns títulos para outros países. Isso permita a tentativa de obtenção de lucros em operações por meio de técnicas derivadas de um conceito hoje conhecido como Arbitragem Estatística. 

Com a modernização dos mercados nas últimas décadas, um passo natural e previsível foi a criação de algoritmos (códigos de programas de computador) para a compra e venda de títulos. Ao invés de demorar algumas horas para levar a informação de um país para o outro, agora é possível transmiti-la em mili, micro ou nano segundos.

Com isso, vieram as críticas de muitos investidores e as dúvidas inerentes da automatização de estratégias. Em um primeiro momento, com uma análise superficial, pode-se pensar que a inclusão dos "robôs" nos mercados eletrônicos trouxe exclusivamente desvantagens ao investidor comum. E isso não é verdade. Uma estratégia simples de ser implementada, e largamente utilizada no contexto da automação de estratégias, é chamada "Formação de Mercado". Ela consiste em posicionar ordens de compra e venda simultaneamente em ambos os livros de oferta. Isso aumenta a quantidade de participantes próximos ao preço mais justo do mercado em qualquer hora do pregão. Como os formadores de mercado evitam ao máximo o envio de ordens conhecidas como "ordens a mercado", elas necessariamente entram na listagem de compradores e vendedores disponíveis naquele momento. Isso amplia consideravelmente a capacidade que o mercado tem de absorver novas ordens a preços mais justos, além de possibilitar uma minimização do slippage caso investidores comuns desejem adquirir ou vender ações de forma imediata em grandes e médios volumes.

Desta forma, os robôs aumentaram consideravelmente a liquidez dos mercados onde estão presentes, além de reduziram consideravelmente a diferença entre o melhor preço de venda para o melhor preço de compra a cada instante (conceito largamente conhecido com bid-ask spread). Isso deixa o mercado muito mais atraente para qualquer investidor. Imagine comprar uma casa hoje e na sequência descobrir que se você quiser vendê-la, o fará por um preço muito inferior que o preço pago. Seria a mesma sensação ao comprar uma ação caso não existisse os robôs que realizam a formação de mercado. Hoje em dia, na BM&F BOVESPA, é possível realizar esta operação na sequência por uma diferença de apenas R$ 0,01 (um centavo) por ação para a grande maioria das ações listadas no IBOV (índice BOVESPA). Não há como ser mais justo que isso. Tal vantagem só foi possível com os novos contratos para realização de formação de mercado. Um estudo recente da Fundação Getúlio Vargas apresenta dados sobre a redução do spread, além de outras vantagem, após a introdução de mais formadores de mercado nos últimos anos na BM&F BOVESPA [Perlin, M.(2013). Os efeitos da introdução de agentes de liquidez no mercado acionário brasileiro. Revista Brasileira de Finanças, 11(2), 281-304].

Há um grande mito sobre a manipulação de mercados eletrônicos quando o assunto são os robôs. Na verdade, eles simplesmente capturam algumas oportunidades que sempre foram disponíveis, mas em um passado recente eram aproveitadas apenas por investidores super especializados no mercado de ações. Agora, simplesmente os robôs fazem estre trabalho de forma mais rápida. Diferente do que se pensa, para o investidor comum, existem inúmeras vantagens inerentes a popularização dos negociadores de alta frequência. 

A BM&F BOVESPA, as corretoras do país, e o governo (com sua implacável taxa tributária), ainda representam uma barreira para a entrada de mais robôs no mercado nacional. De duas uma: ou os robôs estrangeiros (de bancos e fundos de pensão) dominarão o mercado nacional por já serem mais maduros, pois já atuam há alguns anos em mercados mais consolidados, ou este trio (ou pelo menos parte dele) decidirá por ampliar a quantidade de robôs que atuam aqui (no Brasil o volume total ainda não passou de 20% do total de negócios realizados) e ai veremos a entrada de tecnologia nacional tentando sobreviver nesta batalha cibernética. Mas estas são cenas dos próximos capítulos.

Prof. Humberto César Brandão Brandão de Oliveira
Ph.D.


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